Modelo de Negócio Desagregado
John Hagel e Mark Singer, cunharam o termo “corporações desagregadas”, os autores classificam as empresas em três tipos diferentes de negócios com dinâmicas econômicas, competitivas e culturais diferentes, são eles:
Relacionamento com o cliente: Empresas direcionadas à descoberta e aquisição de clientes e a construção de um relacionamento com eles.
Inovação de produtos: Empresas direcionadas ao desenvolvimento de produtos e serviços novos e atraentes tendo o pioneirismo como diferencial competitivo.
Infraestrutura: Empresas direcionadas para a construção e gestão de plataformas que desempenhem um alto volume de tarefas repetitivas.
Disciplinas de valor
Na mesma linha, Treacy e Wiersema sugerem que as empresas devem se concentrar em um de três disciplinas de valor:
- Excelência operacional;
- Liderança do produto;
- Intimidade com o cliente.
No entanto, algumas organizações possuem as três classificações no modelo de negócio simultaneamente em sua operação, e assim são definidas como organizações com modelo de negócio desagregado. Cada um destes coexistem de forma separada para evitar conflitos entre suas dinâmicas econômicas, competitivas e culturais.
Inovação de Produto | Gestão do Relacionamento com o Cliente | Gerenciamento de Infraestrutura | |
Econômicos | A entrada antecipada no mercado permite cobrar preços de primeira linha e adquirir grande fatia do mercado; a velocidade é crucial. | Os altos custos para atrair clientes tornam imperativo fazer muito lucro; o escopo econômico é crucial. | Altos custos fixos tornam a produção de grandes volumes essencial para a obtenção de baixos custos unitários; a economia de escala é crucial. |
Aspectos Culturais | Luta por talento; barreiras baixas de entrada; muitos jogadores pequenos prosperam. | Lutas por escopos; consolidação rápida; poucos jogadores grandes dominam. | Altos custos tornam a produção de grandes volumes essencial para a obtenção de baixos custos unitários; a economia de escala é crucial. |
Competitivos | Centrada no funcionário; mimando as estrelas criativas. | Altamente orientada ao serviço; mentalidade de cliente em primeiro lugar. | Focada no custo; reforça a padronização, previsibilidade e eficiência. |
Hagel e Singer argumentam que as companhias devem separar os três negócios e se especializar em apenas um e terceirizar os outros, já que cada um é guiado por fatores diferentes e podem entrar em conflito uns com os outros, gerando perdas para a organização. A seguir, três exemplos de modelo desagregado.
Três negócios e um conflito
Os bancos suíços sempre foram considerados tradicionais e conservadores. Voltados apenas para clientes muito ricos. Porém, nas últimas décadas, este mercado mudou consideravelmente.
Na época de sua origem a terceirização era cara e os bancos privados preferiam manter tudo “em casa”, por conta da segurança de dados e confidencialidade. Por isso, tradicionalmente, essas instituições se especializaram em executar tarefas de gerenciamento de riquezas até a corretagem e o desenvolvimento de produtos financeiros.
Mas a dinâmica de mercado mudou. A segurança e sigilo se tornaram questões menos relevantes com o fim da mística em torno das práticas bancárias suíças. Em paralelo, a terceirização passou a ser atraente, com o fracionamento da cadeia de valor bancário, e o surgimento de fornecedores de serviços especializados como os bancos de transação e as boutiques de produtos financeiros.
Os fornecedores de serviços especializados se concentram especificamente em lidar com transações bancárias, enquanto as as boutiques de produtos financeiros se focaram apenas apenas no planejamento e na execução de novos produtos financeiros.
O Maerki Baumann, banco com base em Zurich, é um exemplo de um banco que desagregou seu Modelo de Negócio, e agora se concentra apenas no relacionamento com o cliente e na consultoria. Separou seu negócio de plataforma orientada à transação criando uma marca separada chamada Incore Bank para oferecer serviços bancários para outros bancos e outras seguradoras.
No entanto, o maior banco privado da suíço com mais de 200 anos de existência totalmente baseado em relacionamentos profundos com seus clientes, o Pictet, se manteve integrado.
Assim operacionaliza as transações e projeta seus próprios produtos financeiros. Embora o banco tenha tido sucesso, precisa gerenciar cuidadosamente a eventual competição entre três tipos fundamentalmente diferentes de negócios, o que o leva a vivenciar alguns dilemas.
Dilemas Estratégicos
1 – O banco atende dois mercados distintos com dinâmicas muito diferentes o aconselhamento financeiro e a venda de produtos financeiros. Aconselhamento financeiro a clientes ricos exige um relacionamento de confiança e longo prazo. Enquanto a venda de produtos financeiros a outros bancos privados exige dinamismo e agilidade.
2 – Ao vender produtos para outros bancos gera conflito de interesses por conta do mercado de aconselhamento financeiro.
3 – A unidade de negócio de venda de produtos precisa de giro e pressiona os assessores dos clientes do serviço de acompanhamento a venderem os clientes. Isto impacta negativamente a proposta de valor de entregar um aconselhamento neutro. O cliente quer investir no melhor produto do mercado, independente da origem. Mas a meta do assessor acaba influenciando a confiança e relacionamento.
4 – Se estabelece um conflito entre eficiência e curto prazo e o ticket se alta renda e de produtos financeiros, cuja mão de obra é cara, prejudicando a viabilidade do negócio.
5 – O modelo de vendas se produtos é baseado em número de transações o que exige escala para reduzir custos, tornando difícil equalizar com um produto baseado em relacionamento e proximidade.
6 – A criação de novos produtos é movida pela rápida inserção no mercado, conflitando com o serviço de aconselhamento de fortunas baseado em relacionamento de longo prazo.
Marca como principal ativo da empresa
Tradicionalmente, as empresas de telefonia móvel competiam em qualidade de rede. Mas agora começaram a desagregar seus negócios, fechando acordos de compartilhamento com competidores e terceirizando operações conjuntas com fabricantes de equipamentos.
Por conta da disseminação da comunicação e redução dos custos, perceberam que seu recurso principal não é mais a rede, mas sim a sua reputação de marca e o relacionamento com os clientes. Terceirizando a infraestrutura e a inovação de produtos.
Infraestrutura
Empresas como a France Telecom, a KPN e a Vodafone têm terceirizado as operações e a manutenção de algumas de suas redes com fabricantes de equipamentos como a Nokia Siemens Networks, Alcatel-Lucent e a Ericsson. Afinal, hoje em dia estes fabricantes podem manter redes a custos menores, uma vez que a mesma rede atende diversas empresas simultaneamente, reduzindo os custos devido a escala
Inovação de produtos
Buscou empresas menores, mas inovadoras com talento criativo, e as e mais dinâmicas para fornecer recorrentemente novas tecnologias, funcionalidades, serviços, e conteúdo de mídia, jogos, vídeos e música. Dois exemplos são a Mobilizy da Áustria e a Sueca TAT. A Mobilizy se concentra em soluções de serviços de localização para smartphones, enquanto a TAT se concentra na criação de interfaces avançadas para o usuário desses telefones.
Relacionamento com o cliente
Após desagregar seu negócio, o negócio de relacionamento com o cliente se torna a base do negócio e um recurso-chave para a organização. Assim a empresa focada nos clientes pode alocar investimentos feitos ao longo dos anos, para adquirir e reter clientes, aumentando o número de assinaturas.
Uma das primeiras empresas de telecomunicação móvel a perseguir a desagregação estratégica foi a Bharti Airtel, agora uma das principais da Índia. Ela terceirizou as operações de rede com a Ericsson e a Nokia Siemens Networks, e a infraestrutura de TI com a IBM, permitindo que a companhia se concentrasse em sua principal competência: construir relacionamento com o cliente.
Desagregando para crescer
Empresas da indústria da moda essencialmente terceirizam parte de sua produção, com o aumento da escassez de mão de obra para atividades básicas, passaram a terceirizar 100% a sua infraestrutura de produção e franquear as suas lojas. Assim, reduziram seus custos de não administrar o modelo de relacionamento com clientes e focar na criação de novos produtos que fortaleçam a marca e geram receita a partir de licenciamento.
Aplicando no seu Modelo de Negócio
Ao modelar um negócio desagregado você deve levar em consideração como cada configuração irá impactar os blocos do Business Model Canvas, para facilitar fiz uma tabela que os sobreponha em suas diferenças:
Infraestrutura | Inovação de Produto | Relacionamento com o cliente | |
| Serviços são geralmente entregues para clientes empresariais | Os produtos e serviços podem chegar ao mercado diretamente, mas geralmente são entregues por intermediários B2B focados no relacionamento com clientes | Foco no cliente |
| Serviços de infraestrutura | Inovação de produtos e serviços | Altamente orientada ao serviço |
| – | – | Canais Robustos |
| – | – | Relacionamento consistente para aquisição e retenção |
| Preços de commodities – Baixas margens e alto volume | Cobrança de preços premium é possível graças ao fator novidade | Visa gerar receitas com uma vasta gama de produtos construída sobre a confiança do cliente – o objetivo é obter cada vez mais do cliente no decorrer do tempo. |
| Escala e alto volume dos recursos | Recursos humanos e talentos criativos são o principal recurso. | Os ativos e recursos são base de clientes e a confiança adquirida pelo assinante com o tempo. |
| Desenvolvimento e manutenção da infraestrutura | A atividade está focada em alavancar a pesquisa e o desenvolvimento para levar novos produtos e serviços ao mercado. | Conquista e retenção de clientes |
| – | – | Produto e inovação de serviços terceirizados |
Altos custos fixos, alavancados por escala, e por grandes volumes | Alto custo com folha de pagamento no modelo de batalha de novos talentos criativos. | A conquista e a retenção de clientes compõem o custo principal, que inclui os de marca e marketing. |
Os padrões de modelo de negócio podem ajudá-lo a economizar tempo e energia no processo de arranjo entre os blocos em busca de um negócio viável.
Falo no artigo Os 55 modelos de negócio, um pouco mais sobre modelos de negócios que possuem uma maior chance de serem absorvidos pelo mercado e tornarem-se viáveis.
Para seguir nessa jornada não deixe de conferir os artigos:
Afinal o que é esse tal de Business Model Canvas?
Os 55 modelos de negócio mais bem sucedidos para você combinar e criar o seu
E para você se aprofundar recomendo os livros:
- Business Model Generation: Inovação Em Modelos de Negócios
- O navegador de modelos de negócios
- Value Proposition Design: Como construir propostas de valor inovadoras
- Muito Além da Sorte: Processos Inovadores para Entender o que os Clientes Querem
- Comece pelo porquê: Como grandes líderes inspiram pessoas e equipes a agir
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